
Dedico este espaço à memória de Izidro António Trindade, 1912-1996, meu avô paterno.




Dados sobre o Navio Império
Tipo Navio - misto de 2 hélices
Construtor - John Brown & Ca.Ld
Local construção - Clydebank - Glasgow - Escócia
Ano de construção - 1948
Ano de abate - 1974
Registo - Capitania do porto de Lisboa, em 16 de Junho de 1948, com o número H 362
Sinal de código - C S J E
Comprimento fora a fora - 161,87 m
Boca máxima - 20,83 m
Calado à proa - 8,54 m
Calado à popa - 8,54 m
Arqueação bruta - 13.185,79 Toneladas
Arqueação Liacute; quida - 7.758,63 Toneladas
Capacidade - 11.230 m3
Porte bruto - 10.734 Toneladas
Aparelho propulsor - Dois grupos de turbinas, construidos em 1948 por John Brown &Ca.Ld. Duas caldeiras para 30 K/cm2 de pressão.
Potência - 13.200 cavalos
Velocidade máxima - 19 nós
Velocidade normal - 17 nós
Passageiros - Alojamentos para 18 em classe de luxo, 101 em primeira classe, 156 em segunda, 118 em terceira e 406 em terceira suplementar, no total de 799 passageiros.
Tripulantes - 164
Armador - Companhia Colonial de Navegação - Lisboa
A CCN e a frota que conheci
A CCN, Companhia Colonial de Navegação foi criada em 1922, em Angola, com a finalidade de explorar o serviço de ligações marítimas entre a Metrópole, e as Colónias, principalmente as africanas.
Em Fevereirto de 1974 veio a juntar-se com a Empresa Insulana de Navegação, formando a CPTM - Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos.
Existiam instalações da CCN, na Rua da Prata, em cujas montras eram exibidas réplicas da frota da Companhia, com aproximadamente 1,5mt cada. Desde miúdo que me perdia a olhar para aqueles navios.
Existiam instalações da CCN, na Rua da Prata, em cujas montras eram exibidas réplicas da frota da Companhia, com aproximadamente 1,5mt cada. Desde miúdo que me perdia a olhar para aqueles navios.
Os navios abaixo, da Companhia, como o meu avô, lhes chamava, são os que cheguei a conhecer ao vivo. Ao Império, era simplesmente chamado lá em casa de O Navio. Mesmo quando mais tarde, após 1974, o barbeiro Trindade, mudou para o Infante, e depois para o paquete Funchal, o Navio seria sempre e só um , o Império.
O Império e o Pátria, bem como o Vera Cruz e o Santa Maria são navios gémeos, todos serviam os mesmos propósitos, de garantir o vai-vem de tropas, pessoas e mercadorias, entre Portugal, a metrópole, como lhe chamavam, e as colónias.
Império, Pátria, Infante D. Henrique, Vera Cruz, Santa Maria e Uíge
A minha vida estará desde sempre ligada a este pequeno grande navio, de nome Império, onde foi tripulante um excelente e querido homem, o meu avô, Izidro Trindade.
Desde a viagem inaugural, em 1948, que o meu avô entrou para tripulante do navio. Tal como muitos outros portugueses, o meu avô junto com a minha avó cedo saíram de Portalegre, com os seus dois filhos ainda pequenos, tentar a sorte em Lisboa, onde o meu avô veio a exercer a sua profissão de barbeiro, na Baixa, tendo pouco tempo depois ingressado na tripulação do Império,
primeiro como barman, na 1ª e 2ª classe, mais tarde como barbeiro da 3ªclasse, e depois, da 3ª e da 2ª.
Olhando para a foto abaixo, que julgo ser da derradeira partida do paquete, para ser desmantelado na China Formosa, em 1974, na faixa pintada a branco na proa, a penúltima vigia é a da barbearia do meu avô.
Bem, não era só uma barbearia
. Aquele pequeno espaço, era uma loja, com vitrines onde o barbeiro Trindade, comercializava pequenos objectos tais como relógios, joias de imitação, isqueiros, roupas, gravatas, tabacos e muitas outras quinquilharias.Para além disso, ainda havia espaço para uma ou outra gaiola com canários de estimação, um deles era o Miúdo da Bica.
O meu avô era o grande patriarca familiar, cujas idas e vindas de viagem suscitavam sempre uma mistura de nervos da D.Joaquina, minha avó, com azáfama, ansiedade, alegria nas chegadas e tristeza nas partidas. Dado que as viagens eram regulares, todos nos habituámos a toda esta rotina, e ao frenezim gerado a cada chegada do barco a Lisboa.
Como mais tarde vim a confirmar através de outros testemunhos, quem fosse embarcado nessa época, tinha um nível de vida superior à grande maioria da restante população, e por isso o meu avô não só tinha poder económico e autoritário para com a famíla, como o exercía de facto, mantendo sempre o lar, filhos e netos numa quase dependência muito confortável. A minha avó, D.Joaquina sempre foi dona de casa, diga-se excelente, nunca conhecendo outra ocupação.
Mas o navio era vital para o meu avô, não apenas no plano económico, mas creio que mais que isso, no campo pessoal. Era nele que se sentia bem, mais que em casa. Em terra, ele calado e reservado, e até áspero. Porém, gostava de todos, à sua maneira, e demonstrava-o da maneira que um Homem deve demosntrar: com acções e poucas palavras.
Mas o navio era vital para o meu avô, não apenas no plano económico, mas creio que mais que isso, no campo pessoal. Era nele que se sentia bem, mais que em casa. Em terra, ele calado e reservado, e até áspero. Porém, gostava de todos, à sua maneira, e demonstrava-o da maneira que um Homem deve demosntrar: com acções e poucas palavras.
O navio, a viagem, o mar chamavam-no, a tal ponto que quando o navio atrazava, ele começava a ficar impaciente, e nesses dias ele levava horas a caminhar no longo corredor lá de casa a ranger o dente. Era terrível para ele ficar um dia que fosse a mais, em terra, e era terrível para a minha avó assistir aquela cena.
Esta forma de ganhar a vida do Izidro, não era proveitosa apenas para a família, ela dava conforto também, aos amigos e até aos amigos da onça, que de uma forma ou outra vinham pedir ajuda, de várias formas, ao meu avô. Isto soube-o, ou confirmei-o, muito mais tarde, na minha casa, pela voz dele, pouco tempo antes da sua morte, naquelas conversas impares que se tem com uma pessoa cujos anos estão repletos de recordações, factos, coisas boas e coisas ruins, conversas essas que guardo para mim, a outra metade foi-se com ele. Foram conversas não só de avô para neto, mas de homem para homem, e que hoje guardo na minha memória, grato porque aconteceram.
O facto de viver e trabalhar no navio, dá aos tripulantes chance de conhecer outros mundos.
Contava-me o meu avô que o Imperio, navegou até ao Brasil, até Hong-Kong, e que deu a volta ao continente africano, passando pelo canal do Suez, onde fazia tanto calor no interior do navio, que os passageiros, vinham dormir nos decks exteriores. Há que considerar que as temperaturas eram na casa dos 60 graus, e que não havia ar condicionado... eram os anos 50.
Mas as viagens regulares do paquete Império, eram com um itenerário definido. Cada viagem demorava mais ou menos 52 dias, e a rota era Lisboa, Leixões, Lisboa, Funchal, São Tomé, Luanda, Lobito e Moçamedes, Cidade do Cabo, Lourenço Marques, Beira, Moçambique, Nacala e Porto Amélia.
Também chegou a parar em Cabo Verde por motivos de força maior... como mais adiante se verá.
Contava-me o meu avô que o Imperio, navegou até ao Brasil, até Hong-Kong, e que deu a volta ao continente africano, passando pelo canal do Suez, onde fazia tanto calor no interior do navio, que os passageiros, vinham dormir nos decks exteriores. Há que considerar que as temperaturas eram na casa dos 60 graus, e que não havia ar condicionado... eram os anos 50.
Mas as viagens regulares do paquete Império, eram com um itenerário definido. Cada viagem demorava mais ou menos 52 dias, e a rota era Lisboa, Leixões, Lisboa, Funchal, São Tomé, Luanda, Lobito e Moçamedes, Cidade do Cabo, Lourenço Marques, Beira, Moçambique, Nacala e Porto Amélia.
Também chegou a parar em Cabo Verde por motivos de força maior... como mais adiante se verá.
E por fotos de família, aos Açores, no ano de 1974.
O Império era um navio misto, que transportava passageiros e mercadoria, servindo tal como o seu irmão gémeo, o Pátria, e os restantes navios da CCN, os interesses colonizadores da era de Salazar, a era do novo mundo.
Neles viajavam invariavelmente, pessoas que emigravam para as colónias, ou a trabalho, e claro, as nossas tropas. Existia um vai-vem permanente entre o pequeno país colonizador que estendia os seus tentáculos mar fora assegurando o controle e presença sempre constante nas rotas destes navios.
Muita gente famosa viajou no Império, dado que na época as viagens aéreas eram bem mais escassas. Era necessário proporcionar aos que lá estavam uma sensação de proximidade ao mundo daqui, a metrópole.
Porém, para além do aspecto quase perfeito e funcional de tudo isto, existia o lado negro da situação. O envio das nossas tropas nesses barcos, e era particularmente chocante observar as chegadas e partidas no navio. Principalmente as partidas. A minha avó, residindo em Arroios, fácilmente tinha acesso ao cais de Alcântara ou da Rocha e muitas vezes fomos esperar o meu avô, junto com o meu pai. Mas a minha avó ficava muito sensibilizada e deprimida nas partidas, não pelo facto do marido ficar 2 meses fora, mas pelo drama de assistir à partida dos jovens soldados, e do estado em que ficavam as muitas futuras viúvas dos que iram morrer, das mães, pais, irmãos, amigos... pelo que as evitava, só indo no caso de algum familiar, embarcar.
Assisti e não esqueço, a algumas poucas partidas do Império. Os soldados, fardados, mistura de medo, euforia, lágrimas, aventura, juntavam-se nas amuradas do navio aos outros passageiros e tripulantes, debitando promessas, beijos, adeus, acenos, lenços, aos que no cais se amontoavam num último olhar. Poucos minutos antes da partida do navio, os primeiro choros, os primeiros gritos . Depois é uma cadência de detalhes que ditam a partida.
O Império era um navio misto, que transportava passageiros e mercadoria, servindo tal como o seu irmão gémeo, o Pátria, e os restantes navios da CCN, os interesses colonizadores da era de Salazar, a era do novo mundo.
Neles viajavam invariavelmente, pessoas que emigravam para as colónias, ou a trabalho, e claro, as nossas tropas. Existia um vai-vem permanente entre o pequeno país colonizador que estendia os seus tentáculos mar fora assegurando o controle e presença sempre constante nas rotas destes navios.
Muita gente famosa viajou no Império, dado que na época as viagens aéreas eram bem mais escassas. Era necessário proporcionar aos que lá estavam uma sensação de proximidade ao mundo daqui, a metrópole.
Porém, para além do aspecto quase perfeito e funcional de tudo isto, existia o lado negro da situação. O envio das nossas tropas nesses barcos, e era particularmente chocante observar as chegadas e partidas no navio. Principalmente as partidas. A minha avó, residindo em Arroios, fácilmente tinha acesso ao cais de Alcântara ou da Rocha e muitas vezes fomos esperar o meu avô, junto com o meu pai. Mas a minha avó ficava muito sensibilizada e deprimida nas partidas, não pelo facto do marido ficar 2 meses fora, mas pelo drama de assistir à partida dos jovens soldados, e do estado em que ficavam as muitas futuras viúvas dos que iram morrer, das mães, pais, irmãos, amigos... pelo que as evitava, só indo no caso de algum familiar, embarcar.
Assisti e não esqueço, a algumas poucas partidas do Império. Os soldados, fardados, mistura de medo, euforia, lágrimas, aventura, juntavam-se nas amuradas do navio aos outros passageiros e tripulantes, debitando promessas, beijos, adeus, acenos, lenços, aos que no cais se amontoavam num último olhar. Poucos minutos antes da partida do navio, os primeiro choros, os primeiros gritos . Depois é uma cadência de detalhes que ditam a partida.
Chegada a hora, uma coisa é esperarmos algo acontecer, a outra é ela estar a acontecer. Irreversível.
O estrondo da sirene do navio que apanha os incautos de surpresa, o subir o portaló, as amarras soltas, os rebocadores posicionados, e nos altifalantes do cais, uma música inequívoca, para lembrar a todos o propósito daquela viagem: o hino "Angola é nossa".
Esse era o momento em que tudo misturado, com o impacto real da imagem do paquete a afastar-se quase sem se notar da muralha para bem longe, em que tudo desabava. Era o momento dos gritos, dos urros, dos desmaios, era o início de anos de sofrimento e ansiedade, para todos aqueles que viveram a guerra colonial na pele.
Foi este o ponto negro e vergonhoso do Navio, onde cúmplicemente, quem fazia parte do sistema, fingia ou tentava não ver, ou lavava daí as mãos, ou pensava que sem colónias não haveriam os navios, e sem os navios, não haveria trabalho, e por isso eram necessárias as tropas, e isso seria assunto para os políticos.
O estrondo da sirene do navio que apanha os incautos de surpresa, o subir o portaló, as amarras soltas, os rebocadores posicionados, e nos altifalantes do cais, uma música inequívoca, para lembrar a todos o propósito daquela viagem: o hino "Angola é nossa".
Esse era o momento em que tudo misturado, com o impacto real da imagem do paquete a afastar-se quase sem se notar da muralha para bem longe, em que tudo desabava. Era o momento dos gritos, dos urros, dos desmaios, era o início de anos de sofrimento e ansiedade, para todos aqueles que viveram a guerra colonial na pele.
Foi este o ponto negro e vergonhoso do Navio, onde cúmplicemente, quem fazia parte do sistema, fingia ou tentava não ver, ou lavava daí as mãos, ou pensava que sem colónias não haveriam os navios, e sem os navios, não haveria trabalho, e por isso eram necessárias as tropas, e isso seria assunto para os políticos.
O meu avô nunca queria falar das tropas.
em baixo: o Império ao lado do Niassa, outro navio colonial.


Chegadas e Partidas - o lado da família
As chegadas eram sempre mais alegres que as partidas, quer fosse para nós, ou para a maioría dos familiares dos tropas, mesmo que se soubesse que o soldado tinha tido sido ferido em combate. Claro que em muitos casos, a família não fazía a mínima ideia da gravidade do acidente, pois as informações eram escassas.
O dia de chegada do navio era pois um dia de alegre excitação, uma vez o avô estava a chegar e isso representava um conjunto de coisas boas, para além do matar a saudade. Junto com a bagagem pessoal, vinham cestas enormes em verga da ilha da Madeira, recheadas de iguarías, recolhidas por todos os portos onde o navio atracava. Para a dispensa e frigorífico vinham bananas da ilha da Madeira, pequenas e deliciosas, bananas de São Tomé maiores que pepinos, vermelhas e carnudas, cajú, amendoins, lagostas, wiskies, chocolates, enlatados... e para regalo dos netos, brinquedos de Capetown, ou Lourenço Marques, daí que eu e os meus primos não descansávamos enquanto os malões não eram abertos. De lá vieram também os primeiros gira-discos e gravadores de bobines, quando aqui só os bem abastados conseguiam adquirir esses aparelhos.
em baixo: o Império ao lado do Niassa, outro navio colonial.


Chegadas e Partidas - o lado da família
As chegadas eram sempre mais alegres que as partidas, quer fosse para nós, ou para a maioría dos familiares dos tropas, mesmo que se soubesse que o soldado tinha tido sido ferido em combate. Claro que em muitos casos, a família não fazía a mínima ideia da gravidade do acidente, pois as informações eram escassas.
O dia de chegada do navio era pois um dia de alegre excitação, uma vez o avô estava a chegar e isso representava um conjunto de coisas boas, para além do matar a saudade. Junto com a bagagem pessoal, vinham cestas enormes em verga da ilha da Madeira, recheadas de iguarías, recolhidas por todos os portos onde o navio atracava. Para a dispensa e frigorífico vinham bananas da ilha da Madeira, pequenas e deliciosas, bananas de São Tomé maiores que pepinos, vermelhas e carnudas, cajú, amendoins, lagostas, wiskies, chocolates, enlatados... e para regalo dos netos, brinquedos de Capetown, ou Lourenço Marques, daí que eu e os meus primos não descansávamos enquanto os malões não eram abertos. De lá vieram também os primeiros gira-discos e gravadores de bobines, quando aqui só os bem abastados conseguiam adquirir esses aparelhos.
Muitas vezes a "bagagem" do Trindade tinha que viajar em 3 taxis...para dar ideia da dimensão da mercadoria que ele trazia, dele e encomendas, dos vários tipos de amigos.
Uma chegada do Império era pois um festa lá em casa, e também os dias que se seguiam. Grandes almoçaradas e jantaradas, mesas de gente da família, colegas de navio, amigos e conhecidos.
Nos dias em que o navio estava em Lisboa, a casa funcionava como um semi-legal entreposto de entrega e recolha, com gente a entregar encomendas que o Sr.Trindade faria o favor de fazer chegar ao destino, num dos portos de atracagem.
Estes navios, e os seus tripulantes, eram uma máquina afinada de transporte de bens, recados, cartas, até gravações sentidas no gravador de bobines Philips. Eram pontes entre familias que se ramificaram em África, os mais tarde, chamados retornados, e os que aqui ficavam.
Uma chegada do Império era pois um festa lá em casa, e também os dias que se seguiam. Grandes almoçaradas e jantaradas, mesas de gente da família, colegas de navio, amigos e conhecidos.
Nos dias em que o navio estava em Lisboa, a casa funcionava como um semi-legal entreposto de entrega e recolha, com gente a entregar encomendas que o Sr.Trindade faria o favor de fazer chegar ao destino, num dos portos de atracagem.
Estes navios, e os seus tripulantes, eram uma máquina afinada de transporte de bens, recados, cartas, até gravações sentidas no gravador de bobines Philips. Eram pontes entre familias que se ramificaram em África, os mais tarde, chamados retornados, e os que aqui ficavam.
a outra chegada
Após a chegada do navio, depois do desembarque de passageiros, tropas, tripulação, lentamente o cais ía deixando de ter a multidão inicial, até irem ficando os outros, pra a outra chegada. Dado que os tripulantes iam ficando também para o fim, observei "outras chegadas", dos que não vinham de África como embarcaram, aqueles cujas famílias não arrredaram pé daquele cais, durante muitas horas, e ali permaneciam angustiados e sem alegria, até que lentamente, depois da festa havida, desciam as macas, os aleijados, os decepados, os mutilados, os cegos, e aí, sucediam-se de novo os coros de gritos e choros, uns de horror, outros de algum alívio, nos casos em que o mutilado vinha menos mutilado do que os familiares imaginavam.
o hino "Angola é Nossa"
http://www.youtube.com/watch?v=WOfa06UqDq8
Bem mais tarde, de noite, saíam outros ainda, de outra chegada, esses sem ninguém que os esperasse, pois quem os esperava, não poderia nunca saber, que estes chegavam. Eram os "bravos soldados que tombaram em combate", cujas famílias receberíam, pela máquina bem montada do regime, a triste notícia do óbito, com a entrega de uma qualquer medalha, menção, ou condecoração, como se isso valesse de algo. Corpos, ou o que restava deles, metidos em caixas de madeira, que de noite, discretamente seguiam nos camiões militres para uma dependência também militar, a fim de serem colocados os corpos em urnas, depois seladas as urnas com uma fita verde e vermelha, e só depois a família receberia a caixa, selada, com restos mortais de um jovem lá dentro, numa cerimonia discreta e isolada, para que fosse omitido ao máximo o número de baixas em combate.
http://www.youtube.com/watch?v=WOfa06UqDq8
Bem mais tarde, de noite, saíam outros ainda, de outra chegada, esses sem ninguém que os esperasse, pois quem os esperava, não poderia nunca saber, que estes chegavam. Eram os "bravos soldados que tombaram em combate", cujas famílias receberíam, pela máquina bem montada do regime, a triste notícia do óbito, com a entrega de uma qualquer medalha, menção, ou condecoração, como se isso valesse de algo. Corpos, ou o que restava deles, metidos em caixas de madeira, que de noite, discretamente seguiam nos camiões militres para uma dependência também militar, a fim de serem colocados os corpos em urnas, depois seladas as urnas com uma fita verde e vermelha, e só depois a família receberia a caixa, selada, com restos mortais de um jovem lá dentro, numa cerimonia discreta e isolada, para que fosse omitido ao máximo o número de baixas em combate.
uma partida, no deck superior, automóveis da europa, ao fundo, outro paquete, o Santa Maria ou o Vera Cruz
partem tão tristes os tristes
"xe xoubéxez o que custa mandar, gustarías de obedexer toda a bida"
Antóno Oliveira Salazar



relato que não devemos esquecer, e o estranho caso do rombo no casco do Império
DE ALCANTARA A MINDELO
pubicado no Diário de Notícias em 20.01.77
autoria Rodrigues Soares
5 de Janeiro de 1970. O sol, despindo as suas vestes de inverno agreste, dir-se-ia ter caprichado, saudando-nos radioso. Em formatura a seis, cerca de 1500 jovens, em uniforme nº1, prestavam-se às últimas cerimónias.
Para os responsáveis, a satisfação pelo que representávamos, como fruto de trabalho de vários meses em que nos ensinaram e prepararam para a guerra. Nos quartéis e suas paradas, nas serranias e vales deste país, temperaram-nos o corpo, moldaram-nos, transformaram-nos em peças de uma complicada engrenagem.
Na formatura, voltado para aquele amontoado de chapa pintada, cansado, por toda uma noite de viajem sem dormir, pensava naqueles que dias antes tinha deixado, recordava os últimos beijos e abraços ao dar a meia-noite daquele que tinha sido o primeiro dia do ano. Depois tinha sido o embarque pelas 4 horas da madrugada na velha estação de Coimbra com destino a Viana do Castelo, de onde voltaria a partir, desta vez, rumo ao cais de Alcântara. Alcântara, que uma vez mais testemunhava a amargura de quantos viram partir os seus familiares ou amigos.
Não haverá, por certo, palavras que traduzam quanta amargura nos invade ao contemplarmos os pais, as mulheres, os filhos, os amigos que, das mais variadas formas, dão expressão a um sentir que não é mais do que a total incompreensão por nos verem partir, alguns para sempre, com destino a uma guerra para a qual nada tínhamos contribuído.
Aos responsáveis, ali bem perto em Belém, ou em S.Bento, não chegavam os gritos das mães e mulheres de coração despedaçado. Não chegavam, mas mesmo que chegassem, os seus pressupostos de Nação Una e indivisível, tudo justificava. Para quê saber se tal política tinha o apoio popular, se o sistema que nos impunham não partia dessa base?
A História já começou a julgá-los, e tê-lo-á que fazer em memória de quantos deram o seu melhor, a VIDA.
Aproximavam-se as 12 horas, hora marcada para a saída. Com uma medalha de Fátima num dossier de papel de cartas, uma senha de sorteio de um rádio a efectuar a bordo, com que nos distinguiram as “digníssimas” senhoras do M.N.F., algumas palavras, o desfilar e, eis que começa a embarcar a “carne para canhão” , como mais tarde nos viríamos a intitular.
Depois foi o ocupar a melhor posição da ré à proa, na mira de um último aceno, mobilizando para o efeito, boinas, lenços e pertences dos que, em terra tinham ficado. Lentamente o gigante de aço, transformado em quartel flutuante, ia-se afastando cada vez mais. A sensação que se sente nesses momentos não resiste a qualquer preparação psicológica. No entanto, a força da nossa juventude, a humildade do povo que nos encarna, para além da sã camaradagem rapidamente entre todos se cria, leva-nos a não perder a razão e a conformarmo-nos com o destino que nos quiseram reservar.
Como nada era obra do acaso, passados cerda de 10 minutos da hora da partida, éramos chamados para o almoço, um bom almoço levantava por certo a moral às tropas…
Os porões, que a engenharia destina a bagagem e mercadoria tinham sido transformados em casernas, e a nova “mercadoria” empilhada em beliches de ferro. Os camarotes, distribuídos em função das divisas e galões.
As condições em que se viajara nos porões dos navios fretados para o transporte das tropas podem ser testemunhadas pelos muitos milhares de soldados que neles se viram obrigados a permanecer. A mim, foi-me distribuído um camarote, que compartilhei com mais dois camaradas, com casa de banho privativa, boa iluminação, bons beliches, enfim, as divisas a darem os seus frutos. Nos primeiros dias há a curiosidade de conhecer os cantos à “casa”. Depois instala-se a rotina. O jogo, a leitura, uma boa soneca são formas de passar o tempo.
A “batota” começa a criar cada vez mais adeptos, e rapidamente onde quer que houvesse um canto abrigado do vento, quatro ou cinco manos nele se instalavam. No bar, os graduados faziam autenticas mesas de casino, com paradas elevadas que levam a que alguns percam milhares de escudos, e muitos a ficarem sem relógios, anéis, e outros pertences. A resposta para tal procedimento poderá ser encontrada nas palavras que me dirigiu um camarada depois de ter perdido quase todo o dinheiro: “para levar um tiro nos cornos, não preciso de dinheiro”. Alguns reagem efectivamente muito mal à incertezas do futuro; outros, como eu, tentam não pensar no amanhã e viver o presente o melhor que fosse possível. A velha viola que comigo levei transformou-se na fiel companheira de bons e maus momentos.
Sexta-feira, dia 9
Começou a nossa odisseia em pleno alto mar. Estávamos precisamente a quatro dias de viajem. Tinha-me levantado cerca das 6.30 da manhã, e depois do confortável duche, tomei o pequeno-almoço. Nessa altura pensava que quando chegasse a Moçambique teria engordado pelo menos uns cinco quilos, a avaliar pela qualidade da comida que nos era servida. Infelizmente viriam a gorar-se as perspectivas não pelos cinco quilos de engorda, mas pela fome que viria a passar.
Seriam cerca de 12 horas quando pararam as máquinas, faltou a energia, e o navio parou. Gerou-se um certo alarme. Mas pensava-se tratar-se de uma qualquer avaria. Os nossos receios aumentariam quando em reunião convocada nos informaram tratar-se de um “rombo” que causava inundação da casa das máquinas, obrigando a imobilizar o navio. Embora não sendo inesperado os eu estado, corria por certo alguns riscos. As portas-estanque da casa das máquinas foram fechadas mas mantinha-se a dúvida até que ponto resistiriam.
Horas dramáticas se iniciaram. Para a esmagadora maioria era esta a sua primeira grande viagem marítima.
Rodeados de água por todos os lados como uma pequena ilha perdida no Atlântico, lançados à nossa sorte, cedo começamos a sentir o efeito de tal situação. Sem energia eléctrica, não funcionava a cozinha, os frigoríficos descongelavam, as bombas não circulava água. Consequentemente deixou de se poder confeccionar a comida, de se poder fazer o pão, e teve de se atirar ao mar, carne, e outros géneros que por falta de condicionamento, se deterioraram, podendo provocar epidemias a bordo. A falta de bombagem de água reduziria as condições de higiene ao mínimo.
A calma foi no entanto a nota dominante, e as horas foram passando, na esperança de que qualquer barco aparecesse, quanto mais não fosse pelo conforto moral que a sua companhia nos traria.
Um pequeno gerador, existente para tais situações, alimentava as telecomunicações, a sinalização do navio, mantinha um mínimo de iluminação interior. À noite, a pressão do vento, apanhando o navio lateralmente e a consequente deslocação da água para um dos lados, dera aquele uma inclinação acentuada. Poucos dormiram por certo nessa noite, e algumas versões que corriam, não eram tranquilizadoras. A verdade, nunca ao certo se viria a conhecer.
Na manhã do dia seguinte, transformamo-nos em autênticos vigias, mirando o horizonte em todas as direcções, na tentativa de descobrir a aproximação de algum navio. A meio do dia fomos sobrevoados por um avião e só cerca das 18 horas se aproximou um pequeno cargueiro. Como é natural, foi imensa a nossa alegria pois aquele cargueiro representava para nós como uma “bóia” a que nos podíamos agarrar em ultima instância.
Trinta horas tinham entretanto passado, sem que a situação se alterasse. Falava-se na vinda de um rebocador, para o reboque até Cabo Verde de onde nos encontrávamos afastados cerca de 400 milhas.
No dia seguinte, domingo, dia 11, já contávamos com a presença de um segundo barco, na circunstância o cargueiro “Almeirim”. Cerca das 14 horas chegaria por fim o rebocador grego, que “grego” se viu para lançar os cabos para o navio, devido à sua altura e agitação do mar.
Ao fim da tarde começamos a lenta viagem a caminho do porto do Mindelo, onde chegaríamos na tarde do dia 15. Tinham passado, portanto, seis dias.
As filhós – farinha amassada frita –foram o nosso principal suporte alimentar dos últimos dias, obrigando a queimar os degraus de madeira das escadas de corda e outras peças existentes no navio, para as confeccionar.
Um soldado, devido à tensão nervosa por que passava, começou ao princípio de uma das noites a gritar que o navio se estava a afundar. Com ou sem cinto de salvação demos por nós em escassos segundos junto das baleeiras.
Só na manhã do dia 13, de nós se aproximou uma fragata da Marinha de Guerra. A Emissora Nacional, no noticiário das 15 horas da tarde do dia 10 divulgava em comunicado oficial a notícia:
O navio “Império” encontra-se no alto mar, parado, devido a uma avaria na casa das máquinas, está a ser assistido por navios de guerra e aviões nacionais.
excerto de um texto escrito por um ex-combatente
Houve um rombo no casco, por baixo da casa das máquinas do paquete Império, a qual ficou submersa, e portanto com todas a máquinas imobilizadas.
Esse rombo, segundo informação colhida na altura e confirmada posteriormente, foi provocado pelo rebentamento de um explosivo colocado no casco antes da partida de Lisboa.
Esta foi uma outra realidade do navio Império, a de alvo político, que só não deu em tragédia, porque o rombo não sería o suficientemente grande, ou talvez porque a casa das máquinas fora selada.
O tripulante Izidro Trindade também estava, claro, a bordo nesta viagem, e por aqui nada sabíamos, a não ser que o navio se encontrava à deriva algures no golfo da Guiné.
Contou o meu avô mais tarde, que o clima a bordo era de tal forma pessimista, que ele chegou a descer ao seu camarote, a fim de se despedir da fotografia da minha avó, pois a convicção geral, junto dos próprios tripulantes era a de que o navio iría afundar.
Nunca o meu avô falou em sabotagem, nem eu ponderei essa, agora tão lógica explicação, sendo pouco provável uma colisão em alto mar, a ponto de provocar um rombo num navio, e logo na zona da casa das máquinas que se situava a meio do navio.



relato que não devemos esquecer, e o estranho caso do rombo no casco do Império
DE ALCANTARA A MINDELO
pubicado no Diário de Notícias em 20.01.77
autoria Rodrigues Soares
5 de Janeiro de 1970. O sol, despindo as suas vestes de inverno agreste, dir-se-ia ter caprichado, saudando-nos radioso. Em formatura a seis, cerca de 1500 jovens, em uniforme nº1, prestavam-se às últimas cerimónias.
Para os responsáveis, a satisfação pelo que representávamos, como fruto de trabalho de vários meses em que nos ensinaram e prepararam para a guerra. Nos quartéis e suas paradas, nas serranias e vales deste país, temperaram-nos o corpo, moldaram-nos, transformaram-nos em peças de uma complicada engrenagem.
Na formatura, voltado para aquele amontoado de chapa pintada, cansado, por toda uma noite de viajem sem dormir, pensava naqueles que dias antes tinha deixado, recordava os últimos beijos e abraços ao dar a meia-noite daquele que tinha sido o primeiro dia do ano. Depois tinha sido o embarque pelas 4 horas da madrugada na velha estação de Coimbra com destino a Viana do Castelo, de onde voltaria a partir, desta vez, rumo ao cais de Alcântara. Alcântara, que uma vez mais testemunhava a amargura de quantos viram partir os seus familiares ou amigos.
Não haverá, por certo, palavras que traduzam quanta amargura nos invade ao contemplarmos os pais, as mulheres, os filhos, os amigos que, das mais variadas formas, dão expressão a um sentir que não é mais do que a total incompreensão por nos verem partir, alguns para sempre, com destino a uma guerra para a qual nada tínhamos contribuído.
Aos responsáveis, ali bem perto em Belém, ou em S.Bento, não chegavam os gritos das mães e mulheres de coração despedaçado. Não chegavam, mas mesmo que chegassem, os seus pressupostos de Nação Una e indivisível, tudo justificava. Para quê saber se tal política tinha o apoio popular, se o sistema que nos impunham não partia dessa base?
A História já começou a julgá-los, e tê-lo-á que fazer em memória de quantos deram o seu melhor, a VIDA.
Aproximavam-se as 12 horas, hora marcada para a saída. Com uma medalha de Fátima num dossier de papel de cartas, uma senha de sorteio de um rádio a efectuar a bordo, com que nos distinguiram as “digníssimas” senhoras do M.N.F., algumas palavras, o desfilar e, eis que começa a embarcar a “carne para canhão” , como mais tarde nos viríamos a intitular.
Depois foi o ocupar a melhor posição da ré à proa, na mira de um último aceno, mobilizando para o efeito, boinas, lenços e pertences dos que, em terra tinham ficado. Lentamente o gigante de aço, transformado em quartel flutuante, ia-se afastando cada vez mais. A sensação que se sente nesses momentos não resiste a qualquer preparação psicológica. No entanto, a força da nossa juventude, a humildade do povo que nos encarna, para além da sã camaradagem rapidamente entre todos se cria, leva-nos a não perder a razão e a conformarmo-nos com o destino que nos quiseram reservar.
Como nada era obra do acaso, passados cerda de 10 minutos da hora da partida, éramos chamados para o almoço, um bom almoço levantava por certo a moral às tropas…
Os porões, que a engenharia destina a bagagem e mercadoria tinham sido transformados em casernas, e a nova “mercadoria” empilhada em beliches de ferro. Os camarotes, distribuídos em função das divisas e galões.
As condições em que se viajara nos porões dos navios fretados para o transporte das tropas podem ser testemunhadas pelos muitos milhares de soldados que neles se viram obrigados a permanecer. A mim, foi-me distribuído um camarote, que compartilhei com mais dois camaradas, com casa de banho privativa, boa iluminação, bons beliches, enfim, as divisas a darem os seus frutos. Nos primeiros dias há a curiosidade de conhecer os cantos à “casa”. Depois instala-se a rotina. O jogo, a leitura, uma boa soneca são formas de passar o tempo.
A “batota” começa a criar cada vez mais adeptos, e rapidamente onde quer que houvesse um canto abrigado do vento, quatro ou cinco manos nele se instalavam. No bar, os graduados faziam autenticas mesas de casino, com paradas elevadas que levam a que alguns percam milhares de escudos, e muitos a ficarem sem relógios, anéis, e outros pertences. A resposta para tal procedimento poderá ser encontrada nas palavras que me dirigiu um camarada depois de ter perdido quase todo o dinheiro: “para levar um tiro nos cornos, não preciso de dinheiro”. Alguns reagem efectivamente muito mal à incertezas do futuro; outros, como eu, tentam não pensar no amanhã e viver o presente o melhor que fosse possível. A velha viola que comigo levei transformou-se na fiel companheira de bons e maus momentos.
Sexta-feira, dia 9
Começou a nossa odisseia em pleno alto mar. Estávamos precisamente a quatro dias de viajem. Tinha-me levantado cerca das 6.30 da manhã, e depois do confortável duche, tomei o pequeno-almoço. Nessa altura pensava que quando chegasse a Moçambique teria engordado pelo menos uns cinco quilos, a avaliar pela qualidade da comida que nos era servida. Infelizmente viriam a gorar-se as perspectivas não pelos cinco quilos de engorda, mas pela fome que viria a passar.
Seriam cerca de 12 horas quando pararam as máquinas, faltou a energia, e o navio parou. Gerou-se um certo alarme. Mas pensava-se tratar-se de uma qualquer avaria. Os nossos receios aumentariam quando em reunião convocada nos informaram tratar-se de um “rombo” que causava inundação da casa das máquinas, obrigando a imobilizar o navio. Embora não sendo inesperado os eu estado, corria por certo alguns riscos. As portas-estanque da casa das máquinas foram fechadas mas mantinha-se a dúvida até que ponto resistiriam.
Horas dramáticas se iniciaram. Para a esmagadora maioria era esta a sua primeira grande viagem marítima.
Rodeados de água por todos os lados como uma pequena ilha perdida no Atlântico, lançados à nossa sorte, cedo começamos a sentir o efeito de tal situação. Sem energia eléctrica, não funcionava a cozinha, os frigoríficos descongelavam, as bombas não circulava água. Consequentemente deixou de se poder confeccionar a comida, de se poder fazer o pão, e teve de se atirar ao mar, carne, e outros géneros que por falta de condicionamento, se deterioraram, podendo provocar epidemias a bordo. A falta de bombagem de água reduziria as condições de higiene ao mínimo.
A calma foi no entanto a nota dominante, e as horas foram passando, na esperança de que qualquer barco aparecesse, quanto mais não fosse pelo conforto moral que a sua companhia nos traria.
Um pequeno gerador, existente para tais situações, alimentava as telecomunicações, a sinalização do navio, mantinha um mínimo de iluminação interior. À noite, a pressão do vento, apanhando o navio lateralmente e a consequente deslocação da água para um dos lados, dera aquele uma inclinação acentuada. Poucos dormiram por certo nessa noite, e algumas versões que corriam, não eram tranquilizadoras. A verdade, nunca ao certo se viria a conhecer.
Na manhã do dia seguinte, transformamo-nos em autênticos vigias, mirando o horizonte em todas as direcções, na tentativa de descobrir a aproximação de algum navio. A meio do dia fomos sobrevoados por um avião e só cerca das 18 horas se aproximou um pequeno cargueiro. Como é natural, foi imensa a nossa alegria pois aquele cargueiro representava para nós como uma “bóia” a que nos podíamos agarrar em ultima instância.
Trinta horas tinham entretanto passado, sem que a situação se alterasse. Falava-se na vinda de um rebocador, para o reboque até Cabo Verde de onde nos encontrávamos afastados cerca de 400 milhas.
No dia seguinte, domingo, dia 11, já contávamos com a presença de um segundo barco, na circunstância o cargueiro “Almeirim”. Cerca das 14 horas chegaria por fim o rebocador grego, que “grego” se viu para lançar os cabos para o navio, devido à sua altura e agitação do mar.
Ao fim da tarde começamos a lenta viagem a caminho do porto do Mindelo, onde chegaríamos na tarde do dia 15. Tinham passado, portanto, seis dias.
As filhós – farinha amassada frita –foram o nosso principal suporte alimentar dos últimos dias, obrigando a queimar os degraus de madeira das escadas de corda e outras peças existentes no navio, para as confeccionar.
Um soldado, devido à tensão nervosa por que passava, começou ao princípio de uma das noites a gritar que o navio se estava a afundar. Com ou sem cinto de salvação demos por nós em escassos segundos junto das baleeiras.
Só na manhã do dia 13, de nós se aproximou uma fragata da Marinha de Guerra. A Emissora Nacional, no noticiário das 15 horas da tarde do dia 10 divulgava em comunicado oficial a notícia:
O navio “Império” encontra-se no alto mar, parado, devido a uma avaria na casa das máquinas, está a ser assistido por navios de guerra e aviões nacionais.
excerto de um texto escrito por um ex-combatente
Houve um rombo no casco, por baixo da casa das máquinas do paquete Império, a qual ficou submersa, e portanto com todas a máquinas imobilizadas.
Esse rombo, segundo informação colhida na altura e confirmada posteriormente, foi provocado pelo rebentamento de um explosivo colocado no casco antes da partida de Lisboa.
Esta foi uma outra realidade do navio Império, a de alvo político, que só não deu em tragédia, porque o rombo não sería o suficientemente grande, ou talvez porque a casa das máquinas fora selada.
O tripulante Izidro Trindade também estava, claro, a bordo nesta viagem, e por aqui nada sabíamos, a não ser que o navio se encontrava à deriva algures no golfo da Guiné.
Contou o meu avô mais tarde, que o clima a bordo era de tal forma pessimista, que ele chegou a descer ao seu camarote, a fim de se despedir da fotografia da minha avó, pois a convicção geral, junto dos próprios tripulantes era a de que o navio iría afundar.
Nunca o meu avô falou em sabotagem, nem eu ponderei essa, agora tão lógica explicação, sendo pouco provável uma colisão em alto mar, a ponto de provocar um rombo num navio, e logo na zona da casa das máquinas que se situava a meio do navio.
Desse incidente resultou que o navio teve de rumar a Glasgow, a fim de ser reparado, e nesse período de cerca de nove meses, o Izidro ficou em casa, e sem remuneração, aprendendo uma das grandes lições da sua vida. Todos os outrora grandes amigos do tempo do vai-vem de encomendas desapareceram. Na casa do Trindade apenas chegava a família mais chegada, com a honrosa excepção a um grande amigo, o Caixinhas, que mesmo morando em Lourenço Marques, várias vezes se protificou a valer financeiramente ao seu amigo Trindade. Felizmente tal não foi preciso, e todos ficámos a saber quantos amigos restaram na hora da verdade, um. Foi de facto uma grande lição, a do abandono da passoa que deixa de nos ser útil.
mas o Império ainda navega...
... no imaginário de cada um que viajou, mesmo que sabendo ser a reboque de uma guerra, quem viajou em qualquer dos navios coloniais, naquela época, ficou decerto com a lembrança de viagens irrepetíveis, únicas, onde o tempo corria não devagar, mas ao tempo certo, onde se podia saborear também a tempo certo o aproximar de um novo porto, sem nunca esquecer o doce sabor da vida a bordo, testemunhada até pelos que não viajavam a lazer.
Por isso, desde menino eu viajo nesta réplica, que deverá estar na família há perto de 60 anos, um dos melhores presentes que alguma vez tive.
Basta olhá-la e nela revejo o seu interior, os decks, os salões, a piscina, a messe do meu avô, as barbearias, a casa das máquinas, cozinha, e até a ponte de comando. . .
A viagem da minha vida, de Lisboa a Lourenço Marques - Julho a Agosto de 1972
LISBOA-FUNCHAL
Em 1972, o meu pai prometera-me viajar, no caso de bons resultados no Liceu, com a minha avó que iría visitar o meu tio Orlando, que nessa altura tentava a sua sorte em Lourenço Marques. E com a passagem do 4º para o 5º ano, ganhei aquela que foi a viagem da minha vida, viagem essa que por todos os motivos não se podería realizar hoje. Os navios, com aquele feeling belle-époque, as rotas marítimas, as cidades, tal como as conheci, nada disso existe mais.
E eis-me, em Julho desse ano a viver na 1ª pessoa a excitação da partida, no cais de Alcântara. As pessoas, as despedidas, as bagagens, todo aquele movimento, que nesse dia a meio da manhã, eu não só observava, mas fazia parte dela. Nesta viagem não ingressaram tropas, pelo que o ambiente da partida era calmo e descontraído, apenas com a tensão natural destas ocasiões.
o porto do Funchal
O navio não era novidade para mim, conhecia-o pelas inumeras vezes que nele subia a bordo, desde criança. A grande novidade era viver dentro dele, navegar e acima de tudo o que estaría para vir, o conhecimento dos portos que tantas vezes eu ouvira falar nas conversas lá de casa.
Eu e a minha avó, viajávamos com bilhete de 3ªturística, partilhámos um pequeno camarote com uma vigia, 2 beliches e um lavatório, na 3ª classe, tinhamos acesso às refeições na 2ª, e no restante podíamos frequentar as áreas de lazer da 1ª. Tudo isto claro, por sermos familiares de um tripulante, e posso afirmar que era um grande previlégio, pois a coisa funcionava mesmo à Titanic, não havia misturas de classes.
Aos primeiros balanços da navegação, fui-me apercebendo que navegar num paquete, mar fora, nada tinha a ver com o balancinho dos cacilheiros, ou dos "ferrys" do Cais do Sodré.
O navio não era novidade para mim, conhecia-o pelas inumeras vezes que nele subia a bordo, desde criança. A grande novidade era viver dentro dele, navegar e acima de tudo o que estaría para vir, o conhecimento dos portos que tantas vezes eu ouvira falar nas conversas lá de casa.
Eu e a minha avó, viajávamos com bilhete de 3ªturística, partilhámos um pequeno camarote com uma vigia, 2 beliches e um lavatório, na 3ª classe, tinhamos acesso às refeições na 2ª, e no restante podíamos frequentar as áreas de lazer da 1ª. Tudo isto claro, por sermos familiares de um tripulante, e posso afirmar que era um grande previlégio, pois a coisa funcionava mesmo à Titanic, não havia misturas de classes.
Aos primeiros balanços da navegação, fui-me apercebendo que navegar num paquete, mar fora, nada tinha a ver com o balancinho dos cacilheiros, ou dos "ferrys" do Cais do Sodré.
A primeira grande surpresa foi a total mudança no meu avô. O Trindade, a tal pessoa calada, séria sisuda, em terra, transformara-se em viagem, num homem simpático, afável, conversador. É por ele que vou sendo instruido, sobre algumas curiosidades, cuidados, e precauções da vida a bordo. Por ele confirmei que à saída da barra de Lisboa quase sempre há nevoeiro, que existe o balanço popa-a-proa, ou o bombordo-estibordo, que uma vez no mar de Leixões, o navio inclinou tanto para um dos lados que parecia não endireitar, jurando o Izidro a ele mesmo que chegando a Lisboa, iría desembarcar, e mudar de vida, mas não cumpriu a promessa, pois o navio equibrou-se e o Izidro seguiu rumo ao mar, como sempre. Foi a bordo do Império que descobri um Izidro, como peixe na água, popular e querido entre os colegas, respeitado pelos superiores. Este Izidro, nunca viría a revelar-se aqui, em terra parado, e felizes os que testemunharam o verdadeiro Homem.
Um dia se passou em alto mar, e nesse dia foi o tomar o gosto às rotinas e disciplinas. Embora razoávelmente tranquilos em relação ao meu paradeiro, os meus avós obrigavam-me a apresentações regulares nas barbearias. De resto como neto do barbeiro Trindade, eu tinha os olhos de todos os tripulantes com quem me cruzava a observar os meus movimentos. A minha avó já viajara antes, e para ela era apenas mais uma viagem, embora ela gostasse da vida a bordo, ficava-se mais pelos salões. Como puto de 14 anos, eu, literalmente não parava, e quase só estava com ela nas horas de refeições, e claro, à noite, no camarote.
Um dia se passou em alto mar, e nesse dia foi o tomar o gosto às rotinas e disciplinas. Embora razoávelmente tranquilos em relação ao meu paradeiro, os meus avós obrigavam-me a apresentações regulares nas barbearias. De resto como neto do barbeiro Trindade, eu tinha os olhos de todos os tripulantes com quem me cruzava a observar os meus movimentos. A minha avó já viajara antes, e para ela era apenas mais uma viagem, embora ela gostasse da vida a bordo, ficava-se mais pelos salões. Como puto de 14 anos, eu, literalmente não parava, e quase só estava com ela nas horas de refeições, e claro, à noite, no camarote.
No final da segunda noite, penso que já passava da meia-noite o meu avô foi mantendo a minha curiosidade desperta, para que eu não perdesse a aproximação ao Funchal. E realmente é algo a não se perder. A princípio vemos uma ténue luz no horizonte, depois duas, três, dez, cem, muitas, dispostas como num presépio que é a cidade do Funchal. A aproximação lenta de um navio a um porto dá-nos o prazer único de disfrutar cada minuto da mesma, digamos que foi um momento mágico, estar na amurada do navio, com uma morna brisa nocturna, no meu primeiro "terra à vista".
Não fiquei para a manobra de atracagem, fui dormir. No dia seguinte, acordo, salto do beliche, e vou à vigia, vejo o cimento do cais. Após o pequeno-almoço, desembarcámos os três, eu e meus avós, e fomos dar um passeio pela zona baixa do Funchal. As memórias que retenho são as de um lugar bem mais atrazado que Lisboa, meio provinciano, mas com uma vida própria muito activa, e uma paisagem muito bonita. Não sendo a ilha da Madeira uma colónia do estado novo, não existia um grande empenho do poder de Lisboa, na modernização da ilha. Registei as primeiras diferenças no clima, com um calor mais presente, e uma humidade diferente da de Lisboa.
Depois do pequeno passeio, o regresso ao navio, que soltou amarras a meio da tarde, rumo a novo porto. Fui autorizado a assistir à saída para mar alto da proa, mesmo no topo, a 8 metros de altura o que dá uma sensação indiscritível, e até a ilusão que é a nossa vontade que comanda o rumo do navio, que ao saír do porto, quase abalrruou uma pequena embarcação com dois pescadores, tendo os mesmos abandonado o barco e mergulhado. Mas foi apenas o susto.
De seguida iniciava-se um período de sete dias e sete noites de navegação até ao próximo destino: São Tomé.
FUNCHAL-SÃO TOMÉ
Erradamente se pensa que numa semana dentro de um barco, onde se apenas observa mar e céu, que vai ser um tédio, mas não é nada assim. A vida de bordo é sempre recheada de coisas boas, e por outros testemunho que li, o paquete Império tinha uma tripulação e serviços excelentes, e por isso quem apenas olha a carcaça de ferro velho das fotografias que restam do navio, não consegue imaginar que o navio tinha vida, fruto do empenho de toda aquela tripulação.
Embora na época eu não fosse um bom garfo, retenho as melhores recordações das refeições a bordo, com ementas dignas de hotel de *****, e note-se, na 2ª classe. Conforme a rota do navio, era afixada pela manhã, à entrada para o pequeno almoço, a informação de que a hora adiantava, ou atrazava. Nesse período apenas avistámos terra uma vez, muito ao longe, a cidade de Dakar, e os dias repartiam-se entre brincadeiras com amigos ocasionais, de popa a proa, a partidas de ping-pong, à permanância na piscina, onde pela passagem do Equador, se fez uma festa, e alguns "reis" foram premiados com pasteis de nata com pimenta, e em seguida, um copo de água salgada. Eu fui um deles. Havia também a projecção de filmes num dos decks da 1ª, e até missa numa pequena capelinha.
E haviam também OS BAILES.
Algo que muito me fascinou na vida a bordo, foi o conjunto musical. Eu estava na minha fase inicial de aprendizagem na guitarra. E grande parte do que aprendera nessa época foi através da observação de outros músicos, era em colegas de liceu, e nos bailaricos que eu me fixava no pessoal a tocar para depois tentar copiar em casa. Havendo no Império havia um quarteto residente, que abrilhantava matinées e soirées, alternadamente na 1ª e na 2ª classe. Eu ficava ali maravilhado a ouvir exitos da época, os solos à Shadows, muita musica ingles e italiana, alguns temas famosos na África do Sul, tocados muitas vezes, com os músicos a segurarem os amplificadores, tal era o balanço do navio.
Na viagem até São Tomé, a cada dia o clima se tornava mais quente, os dias de um sol radioso, e as noites amenas, não dando vontade de dormir muito tempo. É por essas águas que se avistaram barracudas, baleias e golfinhos, estes nadavam bem perto do navio, alimentando-se dos restos despejados borda fora pela cozinha.
Até que na manhã do sétimo dia de viajem é anunciada a aproximação à ilha de São Tomé, e com natural excitação, fui ocupar o meu posto no topo da proa, e o que aconteceu foi indiscritível, largas centenas de peixes-voadores, que à passagem do navio, levantavam voo, saídos do mar, muitos vindo a aterrar literalmente nos convés do navio, e o pessoal, divertido lançava-os novamente para a água. Já em terra vi que estes peixes eram apanhados, abertos ao meio, e ficavam a secar ao sol.
A ilha de São Tomé, parecia de longe menos magestosa à primeira observação, do que a da Madeira, não fazendo eu uma grande ideia das diferenças que ía encontrar, dado que até ali, o meu contacto com África fora nulo, e embora navegando ao largo de África, tudo no navio respirava ao sabor do mundo europeu, e a partir daí todos os meus sentidos seríam agredidos no bom sentido pelo impacto africano, que se manifestou logo que o navio começou a abrandar até se fundear ao largo, visto não haver cais com as dimensões necessárias ao tamanho do navio. De repente, tal como surgiram os peixes voadores, começam a surgir pequenas canoas, na direcção do Império, no que parecia uma invasão ao navio pelos nativos da terra, que afinal não eram mais que vendedores autorizados, de productos artesanais, muitos deles em tartaruga, aneis, colares, pulseiras, cascos, e outros ornamentos ou enfeites, tudo foi espalhado ao longo dos decks. E ali permaneceram até à largada do navio.
A visita a São Tomé estava prometida desde Lisboa, e o meu avô que tinha amizades em todos os portos, já tinha um desses amigos a aguardar-nos. A saída do navio era meio precária, pois tinhamos que descer pelo portaló lateral ao navio, que dava para um pequeno cais flutuante, e depois subir bordo de uma lancha, o que com o balanço, provocava alguma dificuldade, como por exemplo à minha avó que caiu de joelhos, o que lhe trouxa algumas mazelas posteriores.
Passado o imprevisto chegámos a terra, onde o tal amigo, creio que um funcionário alfandegário, que nos iría levar a um tour pela ilha. E aí sim, vieram as primeiras sensações de contraste, de calor muito húmido, de muito verde, os cheiros diferentes, mesclas de aromas, muita pobreza, notável atrazo, em contraste com a beleza da ilha e a aparente apatia dos locais, gente que nasceu ali, sem qualquer contacto com o exterior, e portanto sem mais horizontes que fossem os da própria limitação da ilha.
A beleza de São Tomé é arrebatadora, o verde enche-nos o olhar, um verde tropical, e não os verdes que conheci em Portugal, o mar igualmente verda azulado, de uma transparência cristalina, tudo muito nativo, muito virgem, dáva-nos a sensação de estarmos num paraíso, onde as palmeiras chegam quase á beira mar.
Não fiquei para a manobra de atracagem, fui dormir. No dia seguinte, acordo, salto do beliche, e vou à vigia, vejo o cimento do cais. Após o pequeno-almoço, desembarcámos os três, eu e meus avós, e fomos dar um passeio pela zona baixa do Funchal. As memórias que retenho são as de um lugar bem mais atrazado que Lisboa, meio provinciano, mas com uma vida própria muito activa, e uma paisagem muito bonita. Não sendo a ilha da Madeira uma colónia do estado novo, não existia um grande empenho do poder de Lisboa, na modernização da ilha. Registei as primeiras diferenças no clima, com um calor mais presente, e uma humidade diferente da de Lisboa.
Depois do pequeno passeio, o regresso ao navio, que soltou amarras a meio da tarde, rumo a novo porto. Fui autorizado a assistir à saída para mar alto da proa, mesmo no topo, a 8 metros de altura o que dá uma sensação indiscritível, e até a ilusão que é a nossa vontade que comanda o rumo do navio, que ao saír do porto, quase abalrruou uma pequena embarcação com dois pescadores, tendo os mesmos abandonado o barco e mergulhado. Mas foi apenas o susto.
De seguida iniciava-se um período de sete dias e sete noites de navegação até ao próximo destino: São Tomé.
FUNCHAL-SÃO TOMÉ
Erradamente se pensa que numa semana dentro de um barco, onde se apenas observa mar e céu, que vai ser um tédio, mas não é nada assim. A vida de bordo é sempre recheada de coisas boas, e por outros testemunho que li, o paquete Império tinha uma tripulação e serviços excelentes, e por isso quem apenas olha a carcaça de ferro velho das fotografias que restam do navio, não consegue imaginar que o navio tinha vida, fruto do empenho de toda aquela tripulação.
Embora na época eu não fosse um bom garfo, retenho as melhores recordações das refeições a bordo, com ementas dignas de hotel de *****, e note-se, na 2ª classe. Conforme a rota do navio, era afixada pela manhã, à entrada para o pequeno almoço, a informação de que a hora adiantava, ou atrazava. Nesse período apenas avistámos terra uma vez, muito ao longe, a cidade de Dakar, e os dias repartiam-se entre brincadeiras com amigos ocasionais, de popa a proa, a partidas de ping-pong, à permanância na piscina, onde pela passagem do Equador, se fez uma festa, e alguns "reis" foram premiados com pasteis de nata com pimenta, e em seguida, um copo de água salgada. Eu fui um deles. Havia também a projecção de filmes num dos decks da 1ª, e até missa numa pequena capelinha.
E haviam também OS BAILES.
Algo que muito me fascinou na vida a bordo, foi o conjunto musical. Eu estava na minha fase inicial de aprendizagem na guitarra. E grande parte do que aprendera nessa época foi através da observação de outros músicos, era em colegas de liceu, e nos bailaricos que eu me fixava no pessoal a tocar para depois tentar copiar em casa. Havendo no Império havia um quarteto residente, que abrilhantava matinées e soirées, alternadamente na 1ª e na 2ª classe. Eu ficava ali maravilhado a ouvir exitos da época, os solos à Shadows, muita musica ingles e italiana, alguns temas famosos na África do Sul, tocados muitas vezes, com os músicos a segurarem os amplificadores, tal era o balanço do navio.
Na viagem até São Tomé, a cada dia o clima se tornava mais quente, os dias de um sol radioso, e as noites amenas, não dando vontade de dormir muito tempo. É por essas águas que se avistaram barracudas, baleias e golfinhos, estes nadavam bem perto do navio, alimentando-se dos restos despejados borda fora pela cozinha.
Até que na manhã do sétimo dia de viajem é anunciada a aproximação à ilha de São Tomé, e com natural excitação, fui ocupar o meu posto no topo da proa, e o que aconteceu foi indiscritível, largas centenas de peixes-voadores, que à passagem do navio, levantavam voo, saídos do mar, muitos vindo a aterrar literalmente nos convés do navio, e o pessoal, divertido lançava-os novamente para a água. Já em terra vi que estes peixes eram apanhados, abertos ao meio, e ficavam a secar ao sol.
A ilha de São Tomé, parecia de longe menos magestosa à primeira observação, do que a da Madeira, não fazendo eu uma grande ideia das diferenças que ía encontrar, dado que até ali, o meu contacto com África fora nulo, e embora navegando ao largo de África, tudo no navio respirava ao sabor do mundo europeu, e a partir daí todos os meus sentidos seríam agredidos no bom sentido pelo impacto africano, que se manifestou logo que o navio começou a abrandar até se fundear ao largo, visto não haver cais com as dimensões necessárias ao tamanho do navio. De repente, tal como surgiram os peixes voadores, começam a surgir pequenas canoas, na direcção do Império, no que parecia uma invasão ao navio pelos nativos da terra, que afinal não eram mais que vendedores autorizados, de productos artesanais, muitos deles em tartaruga, aneis, colares, pulseiras, cascos, e outros ornamentos ou enfeites, tudo foi espalhado ao longo dos decks. E ali permaneceram até à largada do navio.
A visita a São Tomé estava prometida desde Lisboa, e o meu avô que tinha amizades em todos os portos, já tinha um desses amigos a aguardar-nos. A saída do navio era meio precária, pois tinhamos que descer pelo portaló lateral ao navio, que dava para um pequeno cais flutuante, e depois subir bordo de uma lancha, o que com o balanço, provocava alguma dificuldade, como por exemplo à minha avó que caiu de joelhos, o que lhe trouxa algumas mazelas posteriores.
Passado o imprevisto chegámos a terra, onde o tal amigo, creio que um funcionário alfandegário, que nos iría levar a um tour pela ilha. E aí sim, vieram as primeiras sensações de contraste, de calor muito húmido, de muito verde, os cheiros diferentes, mesclas de aromas, muita pobreza, notável atrazo, em contraste com a beleza da ilha e a aparente apatia dos locais, gente que nasceu ali, sem qualquer contacto com o exterior, e portanto sem mais horizontes que fossem os da própria limitação da ilha.
A beleza de São Tomé é arrebatadora, o verde enche-nos o olhar, um verde tropical, e não os verdes que conheci em Portugal, o mar igualmente verda azulado, de uma transparência cristalina, tudo muito nativo, muito virgem, dáva-nos a sensação de estarmos num paraíso, onde as palmeiras chegam quase á beira mar.
Visitámos várias enseadas com praias naturais, alguns pontos um pouco mais altos da ilha onde se podia ter alguma vista priveligiada, bem como passamos por algumas pequenas aldeias, onde definitivamente me convenci estar num mundo diferente, onde as pessoas, a terra, a natureza, comungavam numa harmonia tática. Algumas vezes tivemos que parar, para afungentar macacos da estrada, ou esperar que estes se decidissem a saír.
Terminado o passeio, hora de despedida e retornar ao navio, que largou a meio da tarde para Luanda.
No dia seguinte almocei na messe da tripulação, com o Izidro, uma caldeirada, com peixe pescado nas águas de São Tomé, uns peixões grandes e saborosos.
S.TOMÉ - LUANDA
Não tenho recordação precisa do tempo que demorou o trajecto até Luanda, mas recordo que passámos uma noite inesquecível em Luanda, pelo que creio termos chegado no final do dia seguinte ao da partida de São Tomé.
A cidade de Luanda tem uma baía famosa que nos deslumbra, seja de dia ou noite, e para mim, após as recordações do primeiro impacto com Àfrica, e até pelo que vira no Funchal, foi um impacto observar a entrada em Luanda, pois o porto fica no extremo dessa baía, pelo que temos uma panorâmica da mesma, o que ao caír do dia ainda a torna mais bela.
Luanda apresentou-se-me como uma cidade perfeita. Ao atrazo e pobreza verificado nos destinos anteriores, Luanda impunha-se no seu esplendor, grandeza, modernidade, descontração e tropicalidade, que logo se fez sentir. Depressa me apercebi que o estado novo não olhava a despesas em engrandecer e fornecer qualidade de vida à considerada principal capital do império ultramarino. Em 1972, encontrei uma cidade que em muitos aspectos, por via da situação vigente, e da geográfica, em muitos pontos era superior à velha capital Lisboa.
Avenidas largas, arborizadas, grandes edifícios, mostravam que ali se vivia bem, muito bem, numa aparente comunhão entre portugueses e angolanos, em suma entre o colonizador, e colonizado, entre o branco e o preto.
Baía de Luanda
Mais uma vez, amigos do meu avô, penso que um casal, veio ao nosso encontro, e entre a visita à cidade, aos pontos de maior relevo, à ilha, fui-me fascinando com aquela gente que observava. Pareciam felizes, abertos, dir-se-ía que o fenómeno encontrado no humor do meu avô, que contrastava entre o exibido em Lisboa e em viagem, era um fenómeno colectivo, e que os tugas, em África eram outras pessoas, mais alegres, livres e despreocupadas.
Visitámos um espaço que para mim foi outra novidade, o Cinema ao ar livre, Miramar, onde jantámos, com uma vista espectacular sobre a cidade.
Luanda foi para mim uma tomada de consciência de que Lisboa, não era de forma nenhuma o centro de tudo, talvez me tivesse suscitado o primeiro pensamento de que Angola, não tinha que ser uma província portuguesa, mas sim ter vida e soberania própria, numa comunhão, que a meus olhos, e dados os poucos conhecimentos e contexto na data, sería possível, e até lógica e necessária a convivência entre os dois povos. Pena que o rumo da História não tivesse sido esse, e que a Luanda que aqui relato, só vive na memória de alguns, e nos postais ilustrados e fotografias da época.
LUANDA-LOBITO
De Luanda ao Lobito não existe muita navegação, o barco vai ao largo sim, junto à costa, sempre avistando terra.
Do Lobito tenho vagas recordações de avenidas relativamente perto do porto, não havendo muito a relatar da minha experiência, contudo lembro que a cidade embora bem menos imponente que Luanda, também mantinha a mesma frescura e harmonia entre o europeu e o colonial.
LOBITO-MOÇAMEDES
De Lobito a Moçamedes, agora Namibe, também não existe muita navegação, mas aqui já são notórias algumas mudanças. O porto de Moçamedes, é mais afastado da cidade, que se apresenta como uma cidade numa área menos verde do que vira até ali, com traços de deserto. E aqui que encontramos a famosa planta welwitschia, que só se dá por estas paragens. Em Moçamedes nem fui à cidade, deambulei ali pelo porto, onde comprei um saco cheio de caranguejos, do tamanho de sapateiras, por 10 escudos, o que divertiu o pessoal da messe. Um dos colegas do meu avô sabendo-me interessado na pesca, fez-me seu sócio na pesca à linha, a bordo do navio, que consiste na simples tarefa de ali do primeiro deck, lançar um fio de pesça cuja tal grossura eu ainda não vira, com um valente anzol e segurar firme. Aos primeiros puxões, deu para entender o descomunal tamanho dos anzois e a grossura do fio de pesca, pois os peixes não são as sarguetas, robalos, cabozes, taínhas, que eu pescara até ali, por águas de Sesimbra, Cacilhas ou Seixal... os peixes eram peixões, do tamanho de pargos, alguns deles, os "baicús" roiam a linha, e se fisgados, inchavam de ar parecendo balões e exibindo uns espinhos, e o pior, não eram comestíveis.
De Lobito a Moçamedes, agora Namibe, também não existe muita navegação, mas aqui já são notórias algumas mudanças. O porto de Moçamedes, é mais afastado da cidade, que se apresenta como uma cidade numa área menos verde do que vira até ali, com traços de deserto. E aqui que encontramos a famosa planta welwitschia, que só se dá por estas paragens. Em Moçamedes nem fui à cidade, deambulei ali pelo porto, onde comprei um saco cheio de caranguejos, do tamanho de sapateiras, por 10 escudos, o que divertiu o pessoal da messe. Um dos colegas do meu avô sabendo-me interessado na pesca, fez-me seu sócio na pesca à linha, a bordo do navio, que consiste na simples tarefa de ali do primeiro deck, lançar um fio de pesça cuja tal grossura eu ainda não vira, com um valente anzol e segurar firme. Aos primeiros puxões, deu para entender o descomunal tamanho dos anzois e a grossura do fio de pesca, pois os peixes não são as sarguetas, robalos, cabozes, taínhas, que eu pescara até ali, por águas de Sesimbra, Cacilhas ou Seixal... os peixes eram peixões, do tamanho de pargos, alguns deles, os "baicús" roiam a linha, e se fisgados, inchavam de ar parecendo balões e exibindo uns espinhos, e o pior, não eram comestíveis.
Pela pesquiza que tenho feito, constatei que quem viveu em Moçamedes recorda com uma nostalgia impar, a vida que ali tinha, creio que para além das belezas naturais, o isolamento geográfico contribuía para uma maior união entre as comunidades ali residentes. Para lá de Moçamedes existía a cidade de Sá da Bandeira, hoje chamada de Lubango, de onde chegaría uma passageira muito especial, para embarcar no Império, rumo à cidade de Lisboa.
uma Welwitschia gigante
MOÇAMEDES-CIDADE DO CABO
De Moçamedes, saímos nesse mesmo dia para sul, aqui e ali observando a costa da Namíbia e depois a da África do Sul, na direcção do tão temido Cabo da Tormentas, dobrado em 1988 por Bartolomeu Dias, mais tarde rebaptizado por D.João II, de Cabo da Boa Esperança, pela fé de se encontrar por ali o caminho marítimo para as Indias, como viría a acontecer.
Escreveu-se na altura:
«Partidos dali, houveram vista daquele grande e notável cabo, ao qual por causa dos perigos e tormentas em o dobrar lhe puseram o nome de Tormentoso, mas el-rei D. João II lhe chamou cabo da Boa Esperança, por aquilo que prometia para o descobrimento da Índia tão desejada.»
Não recordo se foram dois ou três dias e noites que durou o trajecto, mas lembro das observações esporádicas à costa, do avistamento de focas, que tal como os golfilnhos nadavam bem perto do navio. Com a descida a sul, o mar ía ficando mais crispado, e principalmente ao anoitecer notava-se um ligeiro arrefecimento da temperatura.
Eu tinha alguma espectativa em conhecer a Cidade do Cabo, porque afinal era de lá que o meu avô trazia muitas da guloseimas, e os brinquedos, que nos chegavam, pelo que foi com enorme desgosto que soube que o navio atracaría de noite e sairía pela madrugada, ficando pois apenas umas horas atracado, mas mesmo assim houve uma saída de alguns grupos, num dos quais o meu avô e eu seguimos.
A primeira noção que tive ao entrar no porto de Capetown, foi a de que até ali tudo o que eu avistara era pequenino. O porto era enorme, com canais e canais de atracagem, autenticos mega-estacionamentos de embarcações de toda a espécie, que entravam e saíam a toda a hora. A cidade, igualmente enorme apresentava-se iluminada à nossa frente, numa imponência que até ali eu apenas vira nos filmes americanos.




Na saída a pé, rumo às enormes avenidas da baixa da cidade, mais próximas do porto, tive uma demonstração prática do que era a realidade que se vivia na época, em termos raciais. Um homem, jazia morto no separador das faixas de rodagem de uma avenida de oito faixas, fora atropelado por um automobilista que a unica atitude que tomou, foi lamentar o estado do carro, puxou o corpo para o separador, e seguiu viagem. Erros do homem morto: atravessou mal a estrada...e era preto.
Este episódio marcou-me bastante. De repente eu fiquei a saber que ali, um preto não tinha mais valor que um cão ou um gato, que até o facto de ficarmos ali, numa tentativa inútil de ajudar, ou avisar a família, ou polícia, só nos traría aborrecimentos, pois estávamos em trânsito na cidade por poucas horas, e como explicar a um polícia branco, o porquê de estarmos preocupados com um preto morto?
Pelo que a ordem era de nos afastarmos tão rápido quanto possível do cadáver e seguir caminho, o que fizemos, deambulando pelas enormes avenidas, vendo os arranha-céus, onde existiam verdadeiras megastores nunca até ali vistas por mim. Um deles com um curioso sistema anti-sismo, acente em amortecedores.
E voltámos ao navio, pelo mesmo caminho. Alguém entretanto, quem sabe uma espécie de carro vassoura, limpara o cadáver do local.
Assim a minha primeira e frustrante estadia de horas na África do Sul.
CIDADE DO CABO-LOURENÇO MARQUES
A saída da cidade do Cabo dá-nos a chance de ver o afastamento da extremidade mais a sul do continete africano, nem que seja por algumas horas, pois o navio tem de rumar a sul a fim de entrar em águas profundas, e ao contornar, saír do oceano Atlântico e entrar no Indico, e não é fantasia, o cabo dobra-se, as águas são revoltas, instáveis, e se por um lado tudo isso existe, podemos juntar-lhe um pouco de sugestão provocada pelos livros de História.
Uma vez no Indico, o mar dá ao navio o famoso balanço de popa a proa, embora com o clima melhorando, com dias mais quentes e noites mais agradáveis, este balanço mete respeito dado o afundamento da proa e consequente levantamento, que numa das minhas idas à proa, me pregou um grande susto. Estava eu nos meus avistamentos, e gritam-me da ponte de comando para saír dali imediatamente, e logo obedeci correndo como podia pela proa em direção à escada, e é nesse momento em que a proa afunda, e eu fico literalmente sem chão a correr no ar, pelo que me estatelei no chão, e desde esse dia, fiquei proibido de subir à proa sem primeiro pedir permissão à ponte.
De resto, a espectativa de chegar a Lourenço Marques vai crescendo, tanto em mim, como nos meus avós, pois todos iríamos rever os meus tios e primos, bem como os meus avós, rever o afilhado, também ele de nome Izidro.
Pelo caminho ainda foi possível o avistamento das cidades Port Elizabeth e Durban, até entrarmos de novo em águas sob o domínio de Portugal.
Porto de Lourenço Marques
Penso que o Império atracou a meio da tarde em Lourenço Marques, onde a família nos esperava, ansiosa para distribuição de beijos e agraços sentidos, de matar a saudade. Era o início das minhas férias em Moçambique, onde iría ficar doze dias, até que o navio subisse Moçambique acima e voltasse de regresso a Portugal, ficando a minha avó, por mais uma viagem, em Lourenço Marques.
Fiquei instalado na casa dos meus tios, e foi para mim uma alegria rever os meus primos, pois na infância, sempre fomos chegados. Encontrava-me pois, em família.
Durante a permanência do meu avô em Lourenço Marques, fomos visitar o seu grande amigo Caixinhas, cuja casa me ficou sempre na memória. Era uma casa situada numa zona residencial um pouco afastada da cidade, e com muita arborização, tudo era verde por ali, a tal ponto que toda a casa era forrada de verde por plantas trepadeiras, os jardins exibindo enormes árvores exóticas, e no meio deste mar de verde, uma variedade de aves, e macacos, tudo por ali à solta. Uma maravilha este ambiente criado pelo Caixinhas, conseguia ter dezenas de animais domésticos, verdadeiramente domesticados, sem amarras, gaiolas, ançaimes, todos generosamente afectos à casa e seus donos, convivendo todos numa harmonia do tipo, troca saudável, o Homem trata bem a natureza, e a natureza trata bem o Homem. Foi uma visita que feita ao caír da tarde teve ainda mais encanto. Foi a única vez que vi o Caixinhas, que creio, ter sido o melhor amigo que o Izidro teve fora da família.
Lourenço Marques, apresentava-se menos compacta que Luanda. Era uma cidade mais plana, ainda mais solta, mais livre, mais multi-racial do que Luanda, onde ainda se detectavam alguns tiques da Metrópole, que não se viam por ali. Dir-se-ía que os aventureiros vindos de Portugal, que o eram, quanto baste, ficavam por Luanda, e os mais ousados, seguiam para Lourenço Marques, mas claro, haviam váriso motivos, tais como referências, contactos, famílias, oportunidades, e outros.
Tal como em Luanda, a vida era boa, muito boa, ao verdadeiro sabor do tempo, muito descontraída e alegre. havia sempre tempo para uma pausa. As pessoas respiravam vontade de estar por ali, e eu como recente habitante por apenas doze dias, fácilmente me integrei no modo de vida daquele gente.
É de Lourenço Marques, que ainda hoje se conta do mito de se pedir uma imperial, e para acompanhar, serviam um pires de pequeno camarão, em vez dos já raros tremoços, que se serviam por aqui. Ao entardecer faziam-se festas, por qualquer pretexto, pois o calor convida a estar fora de casa, ao convívio e ao saborear a vida.
Com o Império a tomar rumo ao norte de Moçambique, fiquei hierarquicamente dependente da minha avó, e do meu tio, o que na prática significava muita rédea solta e pouca vigilância. Dado que a cidade era de uma segurança exemplar, deu para fazer de tudo um pouco, desde visitar locais de interesse turistico, tal como o museu de animais selvagens embalsemados,
ou o Bazar, local onde tudo se vendia, e onde se notavam as grandes influências do mercado comercial de indianos e orientais. Ali tive um verdadeiro baptismo de globalidade, pois vendiam-se pelos naturais, productos vindos da Àsia e Índia.
Depois de ter tido uma pálida ideia do que era a actividade comercial na Cidade do Cabo, e de conhecer o Bazar, foi fácil entender porque o meu avô chegava a Lisboa carregado de presentes para todos, pois tudo era diferente, de variedade infindável, e a preços ridiculamente baratos. Foi aí que entendi a razão de todos na família termos um roupão oriental em cetim, daqueles que só se vêm nos filmes, brinquedos que não haviam em Lisboa, fora todo o género de artigos.
Na companhia do meu primo, e até sozinho, deambulei por avenidas, andei de machimbombo, o autocarro local, fui à pesca, ao cinema, vi um espectáculo do Percy Sledge, e a caminho dos meus 15 anos, fui levado à Avenida de Angola, onde existiam bares de meninas locais, que mostravam os seus dotes nas cubatas a perder de vista. Era um bordel gigante...
Cheguei a conhecer os arredores, pois o afilhado Izidro, que morava num bairro chique da cidade, num moderno casarão, levou-nos de passeio pelos arredores, até à Namaacha, e à fronteira com a Swazilância, pequeno país entalado entre Moçambique e a África do Sul, e lembro-me que fiz questão de passar a fronteira a fim de poder dizer, ter estado noutro país. Do que recordo, foi um dia daqueles muito bem passado. Mais um.
Doze dias se passaram assim tão rápidamente, como se passam todas as coisas boas na vida, e lá chegou o Império, cuja espera todos fomos fazer ao cais, e eu em pulgas para dizer ao meu avô tão disfarçadamente quanto consegui, que tinha ido à Avenida de Angola, ao que ele fez um daqueles sorrisos malandros, e meio surpreso ou não respondeu-me: tu leváste o teu primo à Avenida de Angola? Ao que eu, orgulhosamente acenei com a cabeça, que sim, e o Izidro, num gesto tipicamente macho e cúmplice me chamou, continuando com o sorriso malando: Sacana. Coisas de machos.
Durante a permanência do meu avô em terra, ainda fomos visitar um outro amigo dele, um grego, que tinha uma unidade hoteleira em frente ao mar, num local onde as praias se perdiam de vista.
E chegou o dia do embarque de volta, em que desta vez, tive de viajar num camarote de 4, com mais 3 gajos, mas tudo malta impecável. Lá ficou para trás a minha avó, os meus primos, tios, o primo Izidro e o Caixinha, e todas as minhas experiências em Moçambique.
LOURENÇO MARQUES - MOÇAMEDES
Começou mal a minha viagem de regresso, o tempo piorou logo que nos dirigimos a sul, e sem saber do que padecia, sentia um mal estar permanente em mim que não conseguia explicar. Decidi deixar andar e nada dizer ao meu avô, na esperança que aquela coisa me passasse. O balanço popoa-proa não abrandava, bem pelo contrário aumentava com o vendaval que se fazia sentir, e nesse segundo dia da viagem eu vi a proa do Império desaparecer debaixo de água, para depois emergir e ficar totalmente empinada, enquanto à popa, as hélices ficavam à vista cortando o mar no seu movimento, sempre que a proa afundava. Ondas corriam e varriam o navio com tal violência que não era permitido estar no deck terreo, e fortemente desaconselhdo permanecer nos superiores, de onde vi inúmeras vezes as ondas embaterem no navio e espalharem-se pelo deck, saindo em cascata. Esta foi a pior parte da viagem, a mais assustadora, com vagas que fazem um paquete com o porte do Império parecer uma casca de nós.
No final desse dia quase não jantei, pois o meu estado piorava, e saí até à popa a fim de apanhar um pouco de ar, e assim que olho para a ondulação provocada pelos sulcos das hélices, vomitei tudo... afinal o que eu estava era enjoado, desde que saímos de Moçambique, e após este alívio fiquei como novo, cheio de apetite, e com vontade de observar o efeitos da tempestade na navegação do navio.
Na Cidade do Cabo, mais uma vez a sorte não esteve comigo, de noite entrámos e de madrugada saímos, pelo que a ida a terra limitou-se a umas voltinhas por alguns quiosques que ainda estavam abertos.
Do Cabo a Moçamedes, o tempo foi melhorando, e a minha vida a bordo era o que tinha sido até ali, ou seja, muito boa, uns bocados com o meu avô, umas idas à piscina, aos bares, aos bailes, ao cinema, observações nos meus locais definidos, pois tinha-os, dentro da minah meninice como locais estratégicos onde podia vislumbrar os horizontes, a saber a proa, a popa, e os decks perto da chaminé, e assim pensava que fosse até chegar a Lisboa, como o clima estabilizado naquele que sempre imaginamos quando pensamos em África.
MOÇAMEDES-LISBOA
Em Moçamedes, acho que nem saí do navio, e dei-me conta que para a 1ª classe entrara um grupo de freiras, que acompanhavam com uma jovem de 19 anos, que embora não sendo freira, tinha sido criada e educada no convento ao qual as Irmãs pertenciam, na cidade de Sá da Bandeira.
Não sei dizer como nos conhecemos, mas creio ter sido logo no embarque, e sei dizer que a partir do momento em que tal aconteceu, andávamos sempre juntos, e isso depressa se soube por todo o navio, pois o neto do Trindade que andava sempre por todo o navio...de repente deixou de ser visto aqui e ali como de costume. Era comer e dormir, lá no meu guetto da 3ª e de resto, sempre junto com a minha amiga. Os dias eram mágicos, ao lado dela, e muito falávamos de tudo um pouco, da a cultura, educação e beleza dos seus 19 anos, o coração do jovem de 14, estava pois dependente da amiga. Foi ela que me deu a conhecer um dos meus livros favoritos, o Principezinho, do Exupery. Encontrávamo-nos muitas vezes numa pequena esplanada do deck superior, onde habitualmente o ambiente era calmo, e, pos vezes notava-a triste, instrospectiva, e uma vez chorou bastante, pedindo-me desculpas em seguida, o que me deixou também triste e baralhado.
Até à chegada a Lisboa, se seguiu esta doce rotina, e no dia da chegada, ao aproximarmo-nos da barra de Lisboa, um bando de gaivotas, veio direito ao navio, como vieram as focas e os golfilnhos, em busca dos restos da cozinha, e a minha amiga proferiu com raiva: esfomeados.
E nesse momento eu vi o motivo do choro da minha amiga, e dos seus momentos de tristeza. Ela não vinha feliz para Lisboa, a capital da Metrópole. E no fundo, a palavra referia-se muito mais às pessoas que aos animais.
Chegado a Lisboa, foi o momento de caír na realidade. Estava de novo em terra, definitivamente. O navio faria a habitual pausa em Lisboa, para depois iniciar nova viagem rumo a Leixões e tomar a rota de sempre, com o Izidro de novo no seu posto, mas eu ficaría em terra apenas a ver o Império como me habituei, a partir e a chegar. Foi difícil ultrapassar a nostalgia que se seguiu à viagem, como que uma ressaca, sentindo-me sem direcção, sem objectivos, e porque ainda não tinha inicido as aulas, o sedentarismo ainda veio a piorar o meu estado de insatisfação.
Deu-me para detestar a minha casa, o local, para querer ser tripulante de navio, até que com as aulas, lá voltei ao lugar onde supostamente pertencia.
Muitas viagens fiz depois desta, conhecendo outras terras, outras gentes, outros costumes. Muitas delas maravilhosas, de luxo, de aventura, de lazer, por diversos paíse e continentes.
Retornei ao continente africano, e naveguei no Funchal, tendo até visitado o espaço onde outrora fora a barbearia do Trindade, mas nada se compara à grande viagem da minha vida.
Quanto ao Império, despediu-se de Lisboa, em 1974, depois de 26 anos de navegação, com uma pequena multidão de ex-tripulantes a chorar no cais, na despedida ao navio, e eu, avalio, pelos momentos vividos por mim, e por tudo que o o meu avô me relatou, que estes homens choraram como crianças, ao ver o velho Império desaparecer. Eu choraria, se estivesse lá.

































Este navio está ligado a mim duma forma muito peculiar: ...a 28 de Dezembro de 1955....blá blá...nasceu um indivíduo do sexo masculino...que sou eu.
ResponderEliminarNuma das últimas viagens que fiz no "IMPÉRIO" sei que alguém me tentou contactar em Luanda...uma senhora que também tinha nascido nele.
Olá António,~Só hoje li o seu comentário pois tenho tentado encontrar quem, como nós, nasceu num barco e particularmente no Império. Creio que a senhora a que se refere terei sido eu pois fui visitar o barco na sua última viagem e disseram-me que viajava nele um senhor que também tinha nascido nele mas que tinha ido para terra.
ResponderEliminarGostava de trocar mais coisas consigo pois somos muito poucos e era interessante podermos juntar-nos.
Se assim entender o meu contacto é tina_guerreiro@hotmail.com.
Cumprimentos
Tina
GRANDE PAQUETE OU NAO TIVESSE EU NASCIDO NESSA GRANDE CIDADE EM CIMA DE AGUA.
ResponderEliminarEM 18 DE DEZEMBRO DE 1957
Pois eu foi em 28 de Dezembro de 1955 :)
ResponderEliminarantoniojose7@hotmail.com
Alem de nos (3) será que há mais alguem que tenha
ResponderEliminarnascido no Império.
De acordo com a Tina seriam 5; atendendo a que o navio começou a operar em 48/49, o mais velho(a) terá, no máximo, 61/62 anos.
ResponderEliminarEu a Tina já estamos em contacto via e-mail conforme endereços acima indicados.
Caro amigo:
ResponderEliminarRevivi a viagem, que por duas vezes fiz, mas no Pátria. Tive mais sorte - acho - porque fiquei em LM a residir. Também o meu pai foi "embarcadiço", tanto na Metrópole quanto em Moçambique, como maquinista, tendo percorrido todas as classes, desde ajudante a chefe-de-máquinas.
Um grande abraço.
VP
http://www.facebook.com/home.php#!/group.php?gid=122351757808248
www.vipassos.com
CAro Senhor, muito gostava de trocar algumas impressões consigo sobre estas viagens, por motivos pessoais e profissionais. Em 1963, 31 de Agosto, fomos para África (com a minha mãe)aqui, e jamais esquecemos aqueles mágicos 30 dias. O meu email, caso queira responder-me:
ResponderEliminarmanuela_gonzaga@yahoo.com
Lembro-me perfeitamente do Imperio ou não tivesse eu feito a sua ultima viagem em 1973...lá ia tambem um rapaz,devia de ser alcunha,Imperio era como o chamavamos,precisamente porque tinha nascido a bordo do navio e a viagem foi-lhe oferecida precisamente por esse facto...restam as saudades...
ResponderEliminarEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarEngraçado encontrar este blog e encontrar gente que nasceu no Império... O meu pai fez pelo menos uma viagem em 1968 no Império, como médico de bordo. Curioso é que ele dizia que tinha feito um parto a bordo, durante a viagem...
ResponderEliminarviajei no Império e nunca esquecerei, em 1967, tinha eu 17 anos, foi um sonho!
ResponderEliminarEm Agosto de 1966 viajei para Lisboa vindo de Angola, por ter terminado a comissão como militar, viagem que me deixou algumas saudades. Nos 50 anos da ponte sobre o Tejo, o navio IMPERIO fez parte da inauguração, tendo ficado retido desde o dia anterior, devido ao evento. Os passageiros do navio fizeram parte da inauguração mesmo forçados. Outros tempos!!
ResponderEliminarEm Agosto de 1966 viajei para Lisboa vindo de Angola, por ter terminado a comissão como militar, viagem que me deixou algumas saudades. Nos 50 anos da ponte sobre o Tejo, o navio IMPERIO fez parte da inauguração, tendo ficado retido desde o dia anterior, devido ao evento. Os passageiros do navio fizeram parte da inauguração mesmo forçados. Outros tempos!!
ResponderEliminarGostaria dignissimo Senhor de o felecitar pelo seu reportar de tal dignissimo Navio o Império o interesse asvem de o meu ter ter ido para Moçambique nele e por motivos pessoais andar a investigar tal digna história tão bela e interessante gostaria de trocar informações se possivél com a sua digna pessoa o meu email aivlis@gmail.com.pt
ResponderEliminarAdorei ler este Blog.
ResponderEliminarO meu pai foi Oficial deste navio durante mas mais que uma dezena de anos, e também fiz uma viagem completa nele.
Lembro-me perfeitamente do seu pai
Grande abraço
Bom dia. O meu pai faleceu e esqueci o nome do navio que nos levou em Janeiro de 1956 de Lisboa à Lourenço Marques.como obter esta informaçāo.obrigado.
ResponderEliminarOlá a todos. Também embarquei no Império em 5 de Janeiro de 1970, sofri o susto no dia 9 e ouvi o estrondo da explosão, porque viajava num camarote por cima da casa das máquinas e vi o rombo, depois tapado com um oleado. «Vivi» as agruras das incertezas e da falta de alimentação condigna. Peças de carne do tamanho de meias vacas deitados borda fora que foi um festim para os tubarões, os pequenos almoços compostos de cerveja e chocolate mole até tudo esgotar e o estômago sempre a encolher até chegarmos a Cabo Verde. Embarcámos no navio Niassa - uma ignomínia - até desembarcarmos em Mocímboa da Praia no quase extremo norte de Moçambique e daqui viajarmos em coluna militar até à capital das minas onde o meu Batalhão sofreu 19 mortos e 43 feridos graves. Fiquei instalado em Muidumbe, em pleno Planalto dos Macondes a 63 quilómetros de Mueda. Catorze meses de privações de toda a ordem e intensa actividade operacional, porque a Frelimo não nos deu descanso. No dia 4 de Maio detetámos e destruímos 28 minas durante onze horas num espaço de 2,5 quilómetros. Depois veio o desvario da Nó Górdio para «limpar» Cabo Delgado dos «turras». Gente com estrelas nos ombros, desligada da realidade, que pensava aniquilar a Frelimo para recuperarmos a tranquilidade e transformarmos o norte de Moçambique numa colónia de férias para turistas fardados. A Nó Górdio provocou 132 mortos. Muitas Companhias com o tempo de comissão esgotado foram parar ao assador do Cabo Delgado e sofreram pesadas baixas. Uma loucura de um general visionário. "O material requisita-se e os homens mobilizam-se," era o insensível lema. Instalados no extremo do Planalto faltou-nos tudo, até farinha para confeccionar pão. As colunas de reabastecimento chegavam a demorar 16 dias desde Mueda até Muidumbe, especialmente durante a época das chuvas. As minas originavam a grandes perdas materiais e humanas.
ResponderEliminarNa Zambézia descontraímos até regressarmos de avião em 17 de Fevereiro de 1972. Sou descendente de pescadores e continuo a gostar de água salgada, apesar do susto. Alexandre Batista.
Quando criei e escrevi neste blog, por pura a saborosa nostalgia, nunca mais o visitei, e por isso peço desculpa a todos quantos comentaram e não obtiveram resposta. Um bem haja a todos. jtrindademusico@gmail.com
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